“Eu você e todos nós” ( Me and You and Everyone We Know, 2005) é um filme sobre a sensibilidade da alma humana, no que tange o potencial artístico e os conflitos emocionais. Por mais abstrato que possa parecer o tema, o intuito é justamente registrar a arte não figurativa da personagem Christine Jesperson (Miranda July), frutos de sua insatisfação pessoal com a falta de reconhecimento de seu talento e com os bloqueios que tentam impedi-la de viver intensamente.
A “(in)felicidade” é o pano de fundo desse filme, que mostra, paralelamente, as peculiaridades e excentricidades da vida de vários personagens, que nem sempre se cruzam na história. O fato de não haver uma relação convencional, na qual tudo parece uma enorme coincidência, é um ponto positivo do trabalho da também diretora e roteirista Miranda July. O que importa para July é a essência de cada um dos personagens, permitindo ao espectador mergulhar nas situações vividas na tela, encontrando seus próprios conflitos.

A multifuncionalidade de July no filme – atriz, roteirista e diretora – é transferida também para a história, na qual ela interpreta uma artista plástica solitária, que guarda uma vaga esperança de ser reconhecida e que nas horas vagas trabalha como motorista para pessoas idosas. O seu encaixe no papel é perfeito e, nesse ponto, a competência como diretora e atriz se confundem ao tal ponto que fica difícil atribuir o mérito. July é impecável em todos os sentidos, mesmo nos aspectos que fogem do seu controle, como na estética visual, por exemplo. Ela não ostenta beleza, nem um tipo de aparência indesejável, mas provoca um completo estranhamento. Exatamente o objetivo de uma obra de arte, ou seja, a sua atuação não poderia ser mais apropriada metalinguisticamente falando. Uma atriz, afastadas dos holofotes, dirigindo um filme em que ela mesma representa uma artista plástica, que, tal qual July, tenta emplacar sua arte indubitavelmente original.
As premiações refletem o apreço da crítica pela obra: duas indicações ao “Independent Spirit Awards”, nas categorias de Melhor Filme de Estréia e Melhor Roteiro de Estréia, vencedor do Grande Prêmio da Semana da Crítica, do Câmera de Ouro, do Prix Regards Jeune e do Prêmio dos Jovens Críticos, no Festival de Cannes, Prêmio Especial do Júri, no Sundance Film Festival, prêmio de Melhor Diretor Estreante, no Festival de Filadélfia e ganhador do Prêmio do Público e o Prêmio SKYY, no Festival de San Francisco. A ausência da indicação ao Oscar, o mais badalado prêmio, da mais um caráter alternativo a obra, tornando-o mais Cult ainda.
Ao contrário do que possa parecer num primeiro instante, o filme quebra a fixação do “american way of life”. Um exemplo marcante é o que acontece com o personagem Andrew (Brad William Henke), que ao ser provocado sexualmente por duas adolescentes, desvia do viés moral, partindo para uma abordagem puramente sexual. Isto é, ele encontra uma maneira legítima de liberar sua libido, sem infringir a lei, mas proporcionando à esse trecho do filme uma conotação sutilmente erótica. Em outras palavras, diferente de Hollywood que teria feito o esperado.

Aliás, o sexo está interligado direta ou indiretamente com quase todas as situações do filmes. Entretanto, não significa que seja uma obra puramente erótica, mas que explora a descoberta da sexualidade como uma forma de auto conhecimento. As adolescentes Heather (Natasha Slayton) e Rebecca (Najarra Townsend) exibem uma pseudo perversão inocente que enlouquece Andrew. O destaque maior, entretanto, é para Brandon Ratcliff que vive o garoto Robby. Em uma performance brilhante, ele interpreta uma criança curiosa que é alvo de uma situação sexual escatológica, levando tudo como uma brincadeira inocente no computador.
Robby e seu irmão Peter (Miles Thompson) são filhos de Richard (John Hawkes), um vendedor de sapatos recém separado da esposa e totalmente dedicado aos dois. Richard e Christine se encontram ocasionalmente na loja, onde ele a convence a comprar um par de sapatos supostamente mais confortáveis para os seus pés. A partir daí, inicia-se a trajetória de amor e ódio entre o casal, muito bem simbolizada na cena em que eles caminham pela rua até o estacionamento onde está o carro, metaforizando o relacionamento com o tempo levado para chegar ao carro.
Não faltam cenas surpreendentes em que Christine se comporta livremente de qualquer convenção social, permitindo-se jogar com a própria sorte. As situações são envolventes, pois instigam o espectador a imaginar-se, por exemplo, como seria dizer tudo o que realmente pensa sobre um diretor de uma grande empresa na qual deseja trabalhar, durante uma entrevista. A sensação é quase a de uma compensação pelas próprias frustrações ao ver Christine abdicar-se de muitas das convenções sociais. Ao invés de colocar o personagem cúmplice da vergonha alheia, July dá a sensação de poder ao público sem que isso o constranja.
“Eu você e todos nós” é uma prova de que é possível fazer um bom filme quando a verba é reduzida, mas o talento é abundante. Uma obra para ser vista e revista, já que apresenta uma proposta atemporal, com elegância e competência. É um modelo de tridimensionalidade de personagem.
Nota do Cinema Escrito: 


















outubro 31st, 2009 às 18:04
O que aconteceu? Pararam de postar resenhas pq?! Vão deixar o meu blog de resenhas preferido morrer?