Um conflito étnico. De um lado o sonho de ir à América, de outro, a luta dos Estados Unidos contra a imigração ilegal. Tudo isso com uma pitada de programas anti-terroristas. Essa é a base de “Território Restrito” (Crossing Over, 2009), com direção e roteiro de Wayne Kramer. E para emplacar, Harrison Ford como protagonista. Uma mistura ideal para lançar um filme bem elaborado em sua proposta.
Harrison Ford vive Max Brogan, um agente da imigração sensibilizado com a vida levada pelos imigrantes ilegais. Ford é, portanto, o ponto de equilíbrio, introduzido no filme para sobressair-se como o homem verdadeiramente americano, sempre preocupado com o bem comum (da humanidade em geral). A imagem de bom moço de Max supera toda a hipocrisia dos demais personagens como de Ray Liotta, que vive o papel de Cole Frankel, também da imigração. Frankel chantageia Denise Frankel (Ashley Judd), uma australiana que tenta conseguir de todas formas um visto permanente.

Kramer desengaveta um curta-metragem que lançou em 96 para evoluir para esse filme. Agora como longa, representa a arrogância e paranóia dos americanos contraposta com o sentimento de esperança ou de desprezo que os imigrantes têm para com os Estados Unidos. A receita começa com cenas envolvendo uma grande diversidade racial em diversas situações paralelas, que mais adiante irão se cruzar para o fechamento do enredo.
Verdade seja dita, depois do atentado de 11 de setembro aos Estados Unidos, os filmes que abordam histórias com supostas ameaças terroristas se proliferaram incontrolavelmente. Os mais sádicos poderiam até reverenciar a tragédia como uma ótima fonte de renda para indústria cinematográfica norte-americana. Apesar disso, “Território Restrito” tenta sair um pouco da mesmice e obtém êxito ao utilizar técnicas retóricas já conhecidas, mas aplicadas de forma diferente para o tema. É, portanto, menos tendencioso e melhor custurado que “Rede de Mentiras” (Body of Lies, 2008) veja a analise.
O elenco ainda tem Cliff Curtis como Borgan, que trabalha com Hamid, um árabe naturalizado americano, que tem uma irmã rebelde. Outros personagens imigrantes surgem o tempo todo, mostrando histórias e propósitos de vida diferentes. Entre eles, o de maior destaque é Taslima Jahangir (Summer Bishil), árabe que foi acusada de incitar o terrorismo depois de apresentar um trabalho escolar em que afirmava entender o propósito do ataque de 11 de setembro. Com menos destaque, o staff é completado pela brasileira Alice Braga interpretando uma mexicana.

O drama vem em doses homeopáticas e isso torna o filme mais fácil de digerir, afinal, o intuito não é arrancar lágrimas do público, caso contrário Harrison Ford seria uma peça mal colocada. O objetivo é evidenciar o espírito americano, isto é, a luta do bem contra o mau, onde claramente o bem cabe a Ford, em primeiro plano, e por outros que adoram o país, estrangeiros ou nativos. Nesse ponto, uma clara referência ao filme “No Limite” (Crash, 2004), no qual o drama é um pouco mais intenso, mas utilizado dentro da mesma técnica, uma espécie de auto-ajuda que contempla conceitos como “uma nova chance” e “esperança”.
O filme tem algumas falhas sutis de produção, mas nada que incomode. Por exemplo, a foto que uma imigrante pobre leva na bolsa. O retrato de sua família obedece a todas as regras de composição de imagem, da regra dos terços ao fundo desfocado propositalmente. Tal fotografia só poderia ter sido tirada por um profissional, algo inacessível ao contexto da personagem. Um detalhe que menospresa o realismo que a cena pedia.
“Território Restrito” é um bom filme, com uma edição envolvente e atuações bastante razoáveis, mesmo para um elenco inchado. Uma opção para quem cansou de ver Harrison Ford como Indiana Jones ou 007, já que nesse papel ele se desvincula tanto do estereótipo de herói quanto do de sedutor infalível. Hollywood aceitou o peso de sua idade.
Nota do Cinema Escrito: 



















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