Fantasmas do Futuro (Ghost in the Shell)
Postado em: julho 22, 2009Categoria(s): Análises, Trailers
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Se formos eleger as mais influentes obras do cinema japonês, “Fantasmas do Futuro” (Ghost in the Shell, 1995), ao lado de Akira (1988), estaria entre pelo menos as cinco mais importantes. “Fantasmas do Futuro” tem uma trama densa sobre a função existencial e a manutenção da ordem, em paradoxo à individualização. É o velho tema “o que é vida” evoluído, literalmente.
“Fantasmas do Futuro” é um anime para adultos, além de um tema difícil, tem violência e nudez plástica, característica dessas produções. A animação foi tão influente que o grande marco da virada do século, Matrix (1999), foi fortemente inspirado, assumidamente, pelos irmão Washowski -- diretor e roteirista. Mas verdade seja dita, se ele influenciou, também foi influenciado. É bem parecido com “Blade Runner – O Caçador de Androides” (1982) em background e temática.

Os créditos da história vão para Shirow Masamume, criador do mangá japonês que serviu de base para adaptação cinematográfica, adaptada por Kazunori Itô. Masamume foi muito a frente a seu tempo.
Em 2029, replicantes possuem inteligência artificial avançada, com emoções e memórias transferidas de um ser humano, monitorados por um sistema totalmente integrado com todos os dispositivos tecnológicos.
Motoko Kusanagi, protagonista, major da Secção 9, é uma cyborg combatente dos crimes especiais, zelando pela manutenção da ordem. Diferentemente do original de Masamume, ela tem uma personalidade mais adulta, eficiente para os pouco mais de 80 minutos de filme. Motoko atua em crimes ligados a Internet, uma inovação para época.
Esse sistema de simulacro é ameaçado quando um hacker americano, conhecido como Mestre dos Fantoches, cria um software que controla os infectados. Em paralelo, esses cyborgs começam a ficar revoltosos quanto ao sistema de códigos que os controlam, questionando suas motivações. O colapso, portanto, é iminente.
O filme não perde tempo em envolver mistérios sobre quem são os protagonistas, sendo revelados imediatamente em uma notável sequência de suas construções. O design de personagem (robô) de Okiura Hiroyuki é muito detalhado. Esses cyborgs são mostrados como aperfeiçoamento da humanidade, tanto fisico quanto psiquico. Detalhes nos olhares denunciam suas origens: quase não piscam.

Quando esses seres começam a processar sua pseudo-existência, eles entram em conflitos existenciais. O que vemos, então, não é o tom melodramático de A.I. -- Inteligência Artificial (Artificial Inteligence: A.I., 2001), mas um questionamento do sentido e rumo da vida bem mais angustiante. Uma visão humana em um corpo sintético.
Hoje, a história de “Fantasmas do Futuro” é mais compreendida, mas o fato de um hacker invadir um sistema onipresente e controlar remotamente as máquinas era utópico há 15 anos atrás. Não bastasse a complexidade do roteiro, o anime ainda se permite a explorar os conflitos de interesses políticos ante a democracia.
Há ainda espaço para a teologia, indagando a existência do espírito, chamado de Ghost na película. Esse Ghost é a soma de consciência e memória independentes, que não necessitam do corpo físico – simplesmente chamado de shell (concha) no título original. A personalidade é uma ameaça ao sistema formatado, enfatizada pelo aspecto automático e intrépido das máquinas. A conclusão é que tudo não passa de sistemas que fazem pensar analisando probabilidades sob as circunstâncias. Um falso improviso mental.
O diretor Mamoru Oshii abusa do foco profundo para mostrar o mundo anárquico. Sua fotografia explora angulos diversos, permitidos por se tratar de uma animação.Tudo em um ambiente cyberpunk, moda da época. Ele transmite a artificialidade e fragilidade da vida, banalizando a morte. As mortes nesse filme são bem exageradas, como em Akira. Mas não se trata de um filme de ação. “Fantasmas do Futuro” definitivamente é um drama de ficção-científca. É também uma aula de retórica, bem dirigido e editado de forma pouco linear.

Os traços limpos da produtora Prodution I.G., mesclados aos efeitos 3D inovadores (para a época), causaram surpresa. Hoje, esses efeitos com os movimentos menos fluídos revelam sua idade, já que foram montados em 1995, quando a computação gráfica engatinhava.
Sua trilha sonora, apocalíptica tão quão irritante, é composta pelo lirismo profundo de Kenji Kawai, que provoca desconforto aos menos envolvidos pela sinopse.
“Fantasmas do futuro” sugere muitas reflexões. Não é fácil de digerir em sua primeira audiência. São muitos temas explorados, com um pouco de política, filosofia e cibernética. Sobretudo, aborda o transumanismo, uma tentativa de melhorar a condição humana sob novas possibilidades de e para a natureza humana.
O filme é um cult do cinema oriental. Aqueles que acharam original a história do ótimo Matrix, não o conhecem. Não é uma obra isolada. Além dos mangás, dois outros filmes e duas outras séries de tv foram criadas para que o universo de Ghost in the Shell -- título mais conhecido -- fosse entendido.
Nota do Cinema Escrito: 




Veja esse mesh-up e perceba a intertextualidade de Ghost in the Shell com Matrix:














julho 22nd, 2009 às 18:55
Muito bom o filme, obrigatorio para todos os fãs de anime/manga e ficção cientifica.
O video mostra muita semelhanças que eu não tinha reparado, mesmo tendo visto o Ghost in the Shell antes do Matrix.